Policiais, advogada e chefes do PCC são alvos de operação

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Policiais, advogada e chefes do PCC são alvos de operação

Dois policiais civis e um militar foram presos por envolvimento com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), durante a Operação Saratoga, deflagrada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) e pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ontem. Outro PM investigado e a sua companheira, uma advogada, permanecem foragidos.



Juízes de Fortaleza, Caucaia e Maracanaú decretaram a prisão preventiva de 25 suspeitos de integrarem a teia criminosa, sendo que 17 deles já se encontravam no Sistema Penitenciário; e a prisão de mais 15 pessoas no Regime Diferenciado de Disciplina (RDD). Os nomes dos investigados não foram divulgados.

A reportagem esteve na manhã de ontem na sede da Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) e apurou que, entre os presos, está o delegado da Polícia Civil Francisco Enéas Barreira Maia, da Delegacia Metropolitana de Caucaia. Um escrivão do 8º DP (José Walter) e um sargento da Polícia Militar do Ceará (PMCE) também foram detidos. O outro PM que teve a prisão expedida, a advogada, que é companheira do militar e mais 16 pessoas estão foragidas.

Procurado pela reportagem, o advogado do delegado Enéas Barreira, criminalista Leandro Duarte Vasques afirmou que "por questão de zelo profissional só iremos nos pronunciar quando obtivermos amplo acesso ao acervo investigativo, mas de antemão não descarto que o delegado possa ter sido alvo de uma armadilha".

A reportagem apurou ainda que o soldado foragido já havia sido preso em 9 de abril de 2015, na Barra do Ceará, na companhia de outro PM e de um policial civil com um veículo roubado, três pistolas uma balança de precisão e R$ 5 mil. Os policiais presos foram levados à sede da Delegacia de Assuntos Internos (DAI), na CGD no início da manhã. Por volta de 9h, os investigados foram transferidos para o Complexo de Delegacias Especializadas (Code).

Policiais da DAI ajudaram no cumprimento dos mandados da Operação Saratoga. A CGD informou que instaurou procedimentos disciplinares contra os agentes de segurança. De acordo com o controlador geral disciplinar, Rodrigo Bona, "os servidores se utilizam das funções exercidas em troca de favores".

Caso comprovadas as participações, os policiais podem ser punidos com expulsão. Ontem, durante coletiva de imprensa, Bona ressaltou não descartar a participação de outros policiais e que as investigações continuam.

Líderes

O Diário do Nordeste obteve a informação de que os líderes do grupo criminoso desarticulado na Operação são primos. Um deles é Francisco Márcio Teixeira Perdigão, 39, que já estava detido desde agosto deste ano, quando foi capturado com mais quatro suspeitos, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza, na Operação Profilaxia, da Polícia Civil. Com o grupo, foram apreendidos um fuzil AK-47, uma pistola calibre 7.65, munições e 300g de maconha do tipo skunk (mais forte e cara que a tradicional).

Perdigão é conhecido da Polícia do Estado, por ser um dos principais assaltantes de banco, participar de sequestros e ter atuado no bando comandado por Alexandre de Sousa Ribeiro, o 'Alex Gardenal'. Recentemente, Perdigão também se envolveu com o tráfico de drogas.

Entre os episódios protagonizados por Perdigão, está um sequestro 'cinematográfico' do bando do 'Alex Gardenal' a um estudante, filho de um empresário cearense, no bairro Papicu, em 2008, que viria a durar 23 dias; uma fuga do Instituto Penal Paulo Sarasate vestindo uma farda da Polícia Militar, em 2010; e a descoberta pela Polícia de uma troca de favores que existia entre o líder do PCC e diretores da Unidade Prisional Desembargador Francisco Adalberto de Oliveira Barros Leal (conhecido como 'Presídio do Carrapicho'), em Caucaia, em 2015.

O primo de Perdigão, que também foi capturado na Operação, é Leandro de Sousa Teixeira. A reportagem apurou que o traficante representava a facção criminosa no município de Caucaia. Ele teria negociado o relaxamento da prisão de dois comparsas, com o delegado Barreira.

Conforme o MPCE, o delegado teria recebido R$ 20 mil para, durante a madrugada, alterar um inquérito acerca de um flagrante. Na ocasião, Enéas Barreira fez com que um dos suspeitos passasse a ser considerado pela Polícia Civil como testemunha. Barreira foi autuado pelo crime de corrupção passiva. Já o escrivão investigado na mesma operação, em outros momentos, é suspeito de tráfico de drogas. A reportagem tentou entrar em contato com as defesas dos investigados Leandro de Sousa e Márcio Perdigão', mas até o fechamento da matéria, os advogados não haviam sido localizados.

Lideranças

A investigação da teia criminosa, realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), do MPCE, e pela Coordenadoria de Inteligência (Coin), da SSPDS, teve início em maio de 2015, através do monitoramento e acompanhamento de várias lideranças do PCC.

Desde o início da apuração até agora, 53 suspeitos já foram detidos em flagrante e 19 armas de fogo de diversos calibres e, cerca de 270 quilos de entorpecentes foram apreendidos. Segundo o Ministério Público, para além da lavratura das prisões em flagrante ao longo da investigação, os promotores do Gaeco compilaram todo o material colhido e apresentaram denúncias criminais contra todos os investigados, pelos crimes de organização criminosa armada, tráfico de drogas, associação para o tráfico, dentre outros. A previsão do MPCE é que as penas dos principais líderes da organização criminosa possa variar, em caso de condenação, de 45 a 503 anos de prisão.

Ainda de acordo com o MPCE, a Operação Saratoga foi responsável por impedir grandes motins no Sistema Penitenciário cearense, pois a Inteligência da SSPDS procurou sempre se antecipar aos fatos junto à Secretaria da Justiça e Cidadania (Sejus), para manter o controle e evitar crimes e mortes dentro das unidade prisionais.

O nome 'Saratoga' é uma alusão ao conhecido porta-aviões norte-americano que, em filme ficcional, serviu de base para o combate a criaturas subterrâneas, que na vida real se assemelham a indivíduos que atuam na clandestinidade, praticando crimes à margem da lei e da ordem.

As delegadas Patrícia Bezerra e Anna Cláudia Nery, alvos de mandados de condução coercitiva durante a deflagração da Operação "Vereda" da Polícia Federal, se pronunciaram à imprensa pela primeira vez na tarde de ontem. As duas, que atuavam na Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas (DCTD) até o último dia 7, negaram envolvimento nas denúncias de corrupção e extorsão venda de anabolizantes investigada pela PF.

Lucas Aragão, outro delegado adjunto da DCTD que também está sendo investigado, não compareceu à coletiva. Conforme o presidente da Associação de Delegados da Polícia do Ceará (Adepol-CE), Milton Castelo, Aragão está doente. Atualmente, Lucas Aragão e Patrícia Bezerra, ex-diretora da Especializada, estão afastados da Polícia Civil. Já Anna Nery foi transferida para outra unidade.

Os servidores começaram a ser alvos da operação após a delação premiada do português Carlos Miguel Oliveira, preso duas vezes por equipes da Divisão, sob a suspeita de vender no Estado do Ceará anabolizantes vindos da Europa.

Se comprovada a participação dos policiais civis e demais investigados, eles podem vir a responder por crimes como peculato, concussão, corrupção passiva, associação criminosa, tráfico de drogas e comercialização ilegal de anabolizantes.

Para o assessor jurídico da Adepol, Leandro Vasques, classificar os três delegados como envolvidos nos crimes é uma incompetência da Justiça Federal. "O nascedouro da investigação se dá na delação de um meliante que, em 2015, teria sido alvo de alguma abordagem ilícita dos policiais. Contudo, é preciso consignar que nenhum dos três delegados que foi alvo da operação, atuava na Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas naquele tempo (2015)", disse Vasques.

Conforme a defesa, na próxima segunda-feira (18), um questionamento será encaminhado à Justiça Federal, já que, segundo o advogado, não há provas que comprometam os delegados.

Durante a entrevista, Patrícia Bezerra relembrou, emocionada, sua trajetória à frente da DCTD. Conforme a delegada, em 2017, sob a sua direção, a Divisão apreendeu 200% de drogas a mais do que em igual período de 2016. "Uma semana depois do que passou, o que posso dizer, é que eu sinto muitíssimo por ter assistido à destruição de um trabalho tão bem feito" relatou a delegada.

Sem entender

Patrícia ressalta que mesmo após análise do material em poder da PF, ela não entende o que levou a Polícia Federal apontar ela e os outros dois delegados da DCTD como suspeitos de qualquer crime. "É preciso que se esclareça esse suposto esquema que nos colocaram. A operação foi divulgada como sendo de combate ao tráfico de drogas, sem que nenhuma grama de maconha tenha sido apreendida", argumenta Patrícia.

Questionada sobre a relação da equipe dela com colaboradores (investigados pela PF), Patrícia afirma ser uma prática comum na Polícia Judiciária, principalmente no combate ao tráfico de drogas. "Não é segredo para a PF que os informantes existem. Não entendi qual seria o crime a ser investigado pela pratica do uso deles", relata.

A delegada Anna Cláudia também demonstrou indignação ao lembrar da abordagem dos policiais quando a operação foi deflagrada. "Fomos tratados como bandidos. Entraram policiais extremamente armados nas nossas casas à procura de drogas", disse a ex-adjunta da DCTD.

Camilo diz que não aceitará criminosos
O governador do Estado, Camilo Santana, afirmou que não aceitará que servidores públicos cometam crimes e sejam envolvidos com ilicitudes, em sua gestão. A declaração foi feita durante a solenidade de sanção da Lei de Segurança Bancária, ontem.

Além dos quatro policiais investigados na Operação 'Saratoga', a Polícia cearense teve a imagem abalada recentemente pelo afastamento de 16 policiais civis da Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas (DCTD).

"Todos devem estar sujeitos a investigações, independentemente de quem seja. Então, é claro que quem julga é a Justiça. Mas acho que é importante para dar transparência. No meu governo, jamais aceitarei qualquer envolvimento de servidor com coisa errada. Acho que o trabalho é feito com muita seriedade e responsabilidade", afirmou Camilo Santana.

O governador enfatizou que ainda se trata de uma investigação e, se o crime for comprovado, os suspeitos devem ser punidos. "Todos serão punidos administrativamente pelo Governo, caso sejam comprovadas as suas participações, como também serão julgados pela Justiça, que tem esse papel, caso cometam qualquer crime, qualquer ilícito", completou.

Ontem, durante coletiva acerca da operação Saratoga. O titular da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), André Costa, lembrou que uma das fortes características do crime organizado é buscar corromper servidores públicos. Conforme o secretário, os criminosos têm capacidade para atuar além das células que envolvem a Polícia.

Corromper

"Eles entram no poder público e buscam corromper os servidores. Isso diferencia a facção de uma quadrilha ou um outro bando", disse André Costa. O titular da Pasta também ressalta que todos os policiais tidos como suspeitos nas operações das últimas semanas ainda não foram, sequer, julgados.

"Nós confiamos no trabalho do Ministério Público. Se comprovada a participação, não vamos querer esse servidor trabalhando junto ao Governo do Ceará", acrescentou André Costa.

 Informações Diario do Nordeste

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